
Passa os dedos pelo contorno dos lábios enquanto observa o rosto num espelho. Uma massa rosa se mistura na superfície da boca formando uma figura às vezes pássaro, às vezes botão de flor. No fundo da cabeça os pensamentos postos a andar em círculos caraminholam uma idéia absurda: rasgar o som, como uma onda rasgando o mar. Não quer cantar. Quer despejar sussurros nos meus ouvidos. Cavalgam em mim sensações que ora não sei se boas ou más, ou quentes ou indelicadamente àsperas, que saltam de mim para você usando meu corpo - esse palavrório de vocábulos irregulares. E a expressão tensa das minhas sobrancelhas, que se erguem à medida que o contorno rosa da tua boca se estende e se expande, tomando agora todo o quarto e todo o mundo, assumem a forma de uma exclamação e de um pedido de trégua. Bandeira branca é este lençol sobre a cama, território laico onde a paz pode, por vezes, acontecer, num gemido rouco, num beijo-espasmo, num silêncio em guerra.
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