sexta-feira, 16 de maio de 2008


Passa os dedos pelo contorno dos lábios enquanto observa o rosto num espelho. Uma massa rosa se mistura na superfície da boca formando uma figura às vezes pássaro, às vezes botão de flor. No fundo da cabeça os pensamentos postos a andar em círculos caraminholam uma idéia absurda: rasgar o som, como uma onda rasgando o mar. Não quer cantar. Quer despejar sussurros nos meus ouvidos. Cavalgam em mim sensações que ora não sei se boas ou más, ou quentes ou indelicadamente àsperas, que saltam de mim para você usando meu corpo - esse palavrório de vocábulos irregulares. E a expressão tensa das minhas sobrancelhas, que se erguem à medida que o contorno rosa da tua boca se estende e se expande, tomando agora todo o quarto e todo o mundo, assumem a forma de uma exclamação e de um pedido de trégua. Bandeira branca é este lençol sobre a cama, território laico onde a paz pode, por vezes, acontecer, num gemido rouco, num beijo-espasmo, num silêncio em guerra.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Time is on my side


Idéia

Errar em cor. Como se erra pelos caminhos mais tortos de escrever, e como imprimir a marca em cor se toda cor já foi usada? E como escapo do clichê da falta de assunto, quando a falta de assunto é, antes de tudo, falta de desejo - de desejo de vida, de sede de palavra, de anseio e observação-?
Ela observa da janela do carro um pássaro pequeno pousado na calçada, e a visão a transporta pra não sei que lugar de cheiros antigos, esquecidos nas dobras do vestido da avó. De novo sonhar com igrejas, com antigas pegadas. De novo pensar que o grão de areia que se é no mundo quer rodopiar em outras vidas, em todos os tempos...
O chiiiiiaaaaaadddddooo da cidade é um alfinete na caixa de coser. Um espaço imensurável de tempo separando a ponta espetada na lã, e o carro espetado no asfalto. O farol pede passagem. Verde alegre que camufla a idéia que se vinha tendo sobre (...)