sábado, 27 de setembro de 2008


Na cidade antiga o homem brande o instrumento absurdo - lâmina fria contra o sol da tarde. Na praça antiga ela sonha com insetos, que lhe devoram a carne e os ouvidos, mortalmente feridos por este homem que lhe toma o mundo. O som distante evoca as tardes quentes da infância, onde um âmbar mágico, produzido pelo seu olhar através de um prato, dava nova moldura às coisas, tão reais e tão fugazes, que seu olhar distraído colecionava na memória. As cordas enchem o ar de uma fúria doce e melancólica, fazendo lembrar algumas palavras que ainda hoje ouvira, sobre o grito louco cheio de força improvável. Um idiota conta a história. O homem brande seu instrumento na cidade impossível, enquanto ela dorme, rosto colado à grama, um sol vermelho de se pôr lambendo a lua. Seus dedos são colar de pérola em seu pescoço, dedos que agora passeiam pela sua caixa-carne, de novo produzindo música onde antes havia silêncio e delírio. Ao longe um passáro grita. É o despertar, o acender do fogo. A tarde caí com a música nos ouvidos - ela caí com os dentes na grama. Na tarde finda o homem brande um instrumento indizível.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Alguém disse: tempo.


Pelo tempo de não sei quanto, enquanto dura a música de lentos passos, eu te tenho entre meus dedos - cabelo e boca e nuca e teu sexo exposto. Algo em mim te explora. E eu te sinto repousar em mim, dorme teu fogo opaco no meu peito. Um hálito pesado de fumo invade o tempo, recorta teu corpo contra um quadro escuro - meu escuro te encontra, te sorve, até que em ti explode a paixão derradeira. Algo em mim te esgota. Há milhões de espinhos nas pontas dos meus dedos, e voce os sente ferir tua carne até atingir o sangue, e por esta porta entrar no seu silêncio, na sua respiração pesada e torta. E eu te respiro fundo, o nariz colado ao teu, teu ar quente e úmido me gelando o sangue, meu calor te mantendo perto, e os pêlos que pelos braços se movem, num constante ondular de brisa, tecem a teia do meu amor invisível. Algo está em mim vazio. De novo a música constante de passos modula o timbre da sua voz que raro escuto, quando espreme em tua boca mais esta palavra cheia e cortante que me morde os lábios, e por eles me arrasta até o fim do teu corpo-homem. E meu corpo-fada é etéreo e opaco, e é escuro e denso, e é pesado e tinto, e é vermelho e teu. Algo em mim está sagrado.