sábado, 27 de setembro de 2008


Na cidade antiga o homem brande o instrumento absurdo - lâmina fria contra o sol da tarde. Na praça antiga ela sonha com insetos, que lhe devoram a carne e os ouvidos, mortalmente feridos por este homem que lhe toma o mundo. O som distante evoca as tardes quentes da infância, onde um âmbar mágico, produzido pelo seu olhar através de um prato, dava nova moldura às coisas, tão reais e tão fugazes, que seu olhar distraído colecionava na memória. As cordas enchem o ar de uma fúria doce e melancólica, fazendo lembrar algumas palavras que ainda hoje ouvira, sobre o grito louco cheio de força improvável. Um idiota conta a história. O homem brande seu instrumento na cidade impossível, enquanto ela dorme, rosto colado à grama, um sol vermelho de se pôr lambendo a lua. Seus dedos são colar de pérola em seu pescoço, dedos que agora passeiam pela sua caixa-carne, de novo produzindo música onde antes havia silêncio e delírio. Ao longe um passáro grita. É o despertar, o acender do fogo. A tarde caí com a música nos ouvidos - ela caí com os dentes na grama. Na tarde finda o homem brande um instrumento indizível.

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